A mais-valia vai acabar, seu Edgar, escrita por Vianna em 1960, foi dirigida por Chico de Assis na Arena da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, e promoveu intenso e continuado debate de ideias entre intelectuais, artistas, jornalistas e estudantes. A mobilização resultante desse debate desencadeou a criação do Centro Popular de Cultura, que, em 1962, viria a ligar-se formalmente à UNE.
O objetivo da peça era analisar o processo que levava à perpetuação da miséria por meio da exploração do trabalho, da acumulação capitalista e da concentração da riqueza. Para fundamentar a abordagem conceitual do termo na teoria econômica marxista, Vianna consultou o Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), dialogando com o jovem economista Carlos Estevam Martins.
Do ponto de vista da forma, A mais-valia representou uma radical opção pelo épico, empregando personagens representativos das classes sociais em luta e recursos cênicos como projeções de slides, cartazes, canções, efeitos de desnaturalização, estratégias de humor radiofônico e técnicas circenses e de teatro de revista.
Vianinha apresenta na peça o trajeto de um Desgraçado (um proletário ironicamente designado como D4) que, empenhado em investigar as causas da miséria, lança-se num percurso analítico e reflexivo e acaba por desvendar a base da exploração capitalista. Para compartilhar esse desvendamento com o companheiro desgraçado D1, D4 utiliza uma recriação alegórica de suas descobertas, produzindo, assim, a dissecação explicativa das formas pelas quais a força de trabalho é vendida muito abaixo do valor daquilo que produz.
Mesmo nos círculos culturais da esquerda da época, a peça se mostrou formalmente avançada demais para seu tempo e dividiu opiniões. Houve quem reprovasse nela uma suposta “desumanização dos operários”, ou o uso de recursos cômicos tipificadores, considerados caricaturais em excesso.
O debate sobre A mais-valia vai acabar, seu Edgar está longe de ter sido exaurido. O texto coloca em pauta questões tão atuais quanto a necessidade constante que Vianna teve em seu trabalho: a necessidade de aprofundar a pesquisa estética e política à procura de expedientes de expressão, reflexão e de luta transformadora.
Maria Sílvia Betti