APRESENTAÇÃO
Estamos diante de um livro escrito por Santo Afonso Maria de Ligório, e publicado em 1768. É um tratado sobre a filosofia do amor vivido e praticado em um grau muito alto. O próprio autor viu este livro como "a mais devota e útil" de todas as suas obras espirituais.
O sucesso deste pequeno grande livro foi rápido e sua acolhida foi calorosa em quase todo o mundo. Em pouco tempo ele foi traduzido para várias línguas. Hoje, já está tra-duzido em quase todas as línguas faladas do mundo.
Os quatro primeiros capítulos são como que uma intro-dução ao livro, e aí está mostrando como Jesus Cristo merece nosso amor por sua paixão e pela instituição da Eucaristia. Depois, utilizando as palavras da Primeira Carta aos Corin-tios (cap. XIII): A caridade é paciente, é benigna, a carida-de não é invejosa etc., o autor mostra, em 13 capítulos, "as principais virtudes a serem praticadas e os defeitos a serem evitados para conservar e aumentar em nós o santo amor: a paciência, a bondade e mansidão, a humildade, o fervor, a fé, a esperança, a conformidade com a vontade de Deus".
Eis o início e o complemento da perfeição. Dois motivos fundamentais dominam este tratado prático: o amor como res-posta necessária, irrecusável, à exigência terminante colocada aqui por Deus, Ele que foi o primeiro a amar os homens; e a convicção, estranha na aparência, de que o amor se chega pela prática ou exercício do amor. Isto é, chega-se ao amor amando.
"Quem ama, escreve alhures Santo Afonso, necessaria-mente deseja ser amado. Coração exige coração, amor exige amor." Essa doutrina, tão rica de conteúdo, vem assim expressa em seus escritos espirituais: "Deus vos ama? Amai-o", Ou então: "O nosso bom Deus, porque nos ama muito, muito deseja ser amado por nós; e por isso não só nos chamou a seu amor com inúmeros e repetidos convites nas Sagradas Escri-turas e com muitíssimos benefícios comuns e particulares, mas quis também nos obrigar a isso com um preceito bem expresso, ameaçando com o inferno quem não o ama".
"Se soubéssemos, escreve ele, que em algum reino da terra há um principe formoso, santo, sábio, cortês, piedoso", nós o amaria-mos. Se um homem qualquer nos faz algum beneficio, se um cão se nos mostra fiel, nós lhes somos gratos. "Mas, meu Jesus, esta regra vale para os outros, vale para todos, só não vale para vós."
E sua perseguição a nós é um acontecimento contínuo já desde o começo da história. A criação é obra do amor. Cer-tamente, antes da Encarnação do Verbo, o homem podia du-vidar que Deus o amava com ternura, porque, a rigor, a ver-dade desse fato, surpreendente e incrível, não era coisa que podíamos compreender na ordem natural. Mas, depois que Ele revelou seu segredo em uma epifania de sangue, depois da morte de Jesus Cristo, quem poderia duvidar disso? Agora que sua luz iluminou nosso caminho, compreendemos que, em todas as partes, Ele nos envolve com seu amor irresistível.
Vejam, o significado da revelação do Filho de Deus é este: o amor que parece uma lei constitucional de nosso ser, o amor de Deus na ordem da graça, é um dom, algo que so-mente Ele nos pode dar, e, sem Ele, nós nem o podemos de-sejar. "Quereis o amor? - escreve Santo Afonso - pedi-o." "O Senhor é pródigo em distribuir seus dons, mas, sobretudo, é pródigo em dar o amor a quem o procura, porque este amor é o que Ele, mais do que tudo, exige de nós."
Daí o segundo motivo que domina a Prática do Amor a Je-sus Cristo e, em geral, toda a doutrina espiritual de Santo Afonso.
Pergunta-se, e não sem razão, como é possível incutir uma prática do amor, ou melhor, como é possível educar-se para amar, como para um exercício virtuoso, uma vez que entre os sentimentos do coração não há nada de mais espontâneo e im-petuoso do que o amor. Não se ama por força ou por exercício.
Mas essa pergunta, cabível sem dúvida, foi colocada pelo próprio Deus, que dá, no primeiro mandamento, uma obrigação rigorosa de amá-lo. A resposta, esplendidamente bela, é aquela que acima foi acenada por Santo Afonso. O amor, como sentimento humano, espontâneo, não se coman-da, recebe-se quando o merecemos. Mas o amor de Deus é graça, é virtude infusa, como dizem os teólogos, juntamente com a fé e a esperança, graça e, portanto, dom gratuito, que é também nova criação de nossa alma pelo batismo. Um cristão só pelo fato de ser cristão, tem em si o amor de Deus como raiz de toda a sua atividade futura; pode e deve amar a Deus porque Deus é o próprio amor que lhe invade a alma, para excitá-lo, estimulá-lo, impeli-lo a responder; não a dar por primeiro, mas retribuir amor a Deus que lho pede de volta.
Assim se compreende como o amor de Deus pode ser o início de todo o caminho da perfeição e também seu com-plemento. Exortar a prática do amor é exortar a pôr em ação um princípio de atividade virtuosa que há em nós desde o batismo. Ele deve impregnar toda a nossa vida, e quando a impregna, todo ato, toda respiração, toda palavra é virtude e amor de Deus. "Ama e faze o que queres." Esse célebre dito de Santo Agostinho é exatamente o tema da Prática de Santo Afonso e daí o procedimento deste precioso livrinho: quem ama a Jesus, ama todas as virtudes, isto é, ama exercitar-se nelas, ama a prática do amor, para purificar-se da escória do pecado e de toda a decadência espiritual, e depois elevar-se, até chegar a amar a Deus com a pureza de uma vontade não mais natural e humana porque unificada com a de Deus.
Essa é a síntese das doutrinas contidas ou supostas pela Prática, por este pequeno livro que saturou aquele que teve fome e sede de heroísmo, tanto nos tempos em que viveu seu santo autor como nos que vieram depois. Fará o mesmo, nós o esperamos, também hoje, a quantos tiverem a ventu-ra de lê-lo, não simplesmente por lê-lo, mas por anseio de fazer-se santo.
Agora, é importante que quem lê este livro tenha bem presente que ele foi publicado pela primeira vez em 1768. Por isso certos conceitos expressos nele são daquele tempo. Mas em nada ficam diminuídos o valor e a importância desta obra.
Vamos perceber que certos conceitos cristológicos que nele aparecem não se ajustam com a cristologia de nosso tempo. Mas quem quiser estudar cristologia deverá buscar outros livros escritos nos tempos de hoje.
Sem querer subestimar a ascese do tempo, é bom nos alertarmos para a evolução de certos conceitos a respeito das virtudes da humildade, da obediência, do amor ao sofrimen-to. Tudo isso sofre o condicionamento do tempo. Às vezes, fica na gente a impressão de que a humildade consiste em uma negação de si mesmo e de seus valores; em uma renún-cia aos direitos e à dignidade da pessoa humana; em uma ocultação das próprias aptidões e qualidades. Além do exa-gero de linguagem e de conceito, o livro paga o tributo da ascese do tempo do autor.
Também quando fala da obediência, o autor não foge ao pensamento da época: obediência cega. Não se pensava ainda em uma obediência corresponsável, na necessidade de diálogo dentro da comunidade para se descobrir a vontade de Deus e assim obedecer conscientemente. Imaginem só: naquele tempo a obediência a um superior era um critério infalível de que se estava fazendo a vontade de Deus. Até se buscava na obediência tranquilidade para aquilo que se fazia. Não ser capaz de fazer nada sem ser mandado, só para ter o mérito da obediência, era virtude. Hoje, o que é? Mas isso não diminui em nada o valor do livro.
Há algumas referências ao amor, ao sofrimento, que dei-xam para alguns a impressão de masoquismo. Mas isso não nos deve impressionar, sobretudo, em um mundo que tanto sofre como é o nosso. O que se quer dizer é sobre a necessidade de se aprender a aceitar o sofrimento para se sofrer menos.
Daí por que este livro é para pessoas maduras, valentes e fortes na fé, que saibam discernir o que era próprio do tempo em que o livro foi escrito, e como transformá-lo e atualizá-lo para nossos dias. Este livro é um desafio. O certo é que este livro é um livro de ouro.
Pe. Francisco Costa, C.Ss.R.